O cliente quer do jeito dele, e agora?

Como existe a primeira vez para todo mundo, aconteceu comigo de um cliente solicitar a legendagem de um vídeo. Neste caso, não precisei fazer a tradução, somente a legenda e o timing das falas.

O cliente enviou o texto em um arquivo do Word com uma determinada divisão. Passei as falas (já em português, traduzidas pelo cliente e com diversos erros) para o Subtitle Workshop e comecei a fazer as divisões das legendas, correção dos erros, e finalmente, o timing.

Todo profissional que trabalha com legendagem sabe que no geral, cada linha deve ter no máximo 32 caracteres; cada legendas deve ter no mínimo 1 segundo ou 30 frames de duração, entre outras regras que devemos obedecer.

Ao entregar o trabalho, o cliente solicitou que mantivesse as legendas do mesmo jeito como estava no arquivo do Word. Informei que daquela forma o trabalho não seria profissional, informei sobre os erros gramaticais, mas ele insistiu em manter como havia enviado.

Refiz o trabalho e entreguei como o solicitado. Depois pensei: será que realmente deveria ter feito isso? Será que deveria, então, ter informado que não iria fazer o trabalho de maneira amadora (afinal, é o meu nome que está em jogo)?

Pensei que isso fosse uma exceção à regra, mas um colega comentou uma situação parecida. No caso dele, o cliente solicitou que não usasse pontuação no final das frases curtas e que não têm outra frase em seguida (também em um trabalho de legendagem). Uma tradutora ressaltou que é importante se impor nesses momentos, porque se outra pessoa ver o nosso trabalho desse jeito e tiver um mínimo de conhecimento, vai guardar o nosso nome como sendo um profissional que não tem domínio da gramática, ou de legendagem, ou do trabalho que for.

Fazendo uma comparação um pouco grosseira, essas solicitações são como pedir que um engenheiro construa um prédio utilizando areia de praia e não concreto, simplesmente porque eu quero que seja feito assim. Amanhã ou depois se o prédio desabar, quem levará a culpa será o engenheiro, e não quem mandou utilizar a areia no lugar do concreto.

Lembre-se sempre que outras pessoas verão o seu trabalho final, e você é totalmente livre para aceitar fazer do jeito que o cliente solicitar (mesmo sendo fora das regras), ou optar por não fazer.

Para finalizar o post, deixo uma breve citação do livro Escola de Tradutores, do Paulo Rónai:
“… toda tradução, para ser bem-feita, deve obedecer a algumas regras fundamentais, tanto técnicas quanto éticas”.

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